Último protetor

22/05/2010

Aqueça-Me, para deter a dor
Proteja-me, do que virou meu ser
Coloca-me, aonde não posso ver
Diz-me, que ainda sente meu calor

Faça-me, de tons cinza para cor
Dei-me, uma chance de não poder
Lava-me, faça a água me escolher
Tira-me, do degradante bolor

Rouba-me, o medo de gargalhar
Venha-me, com o que é mais distante
Deita-me, em tu, minha fortaleza

Traga-me, vontade de conquistar
Veja-me, quando estou mais inquietante
Ama-me, na verdade da certeza

Anúncios

O ônibus

22/05/2010

Será que esse é o certo? Vou perguntar, melhor não, melhor ficar quieto. R$ 2,50. Tenho R$3,00. Fica com o troco, engraçado nos filmes isso é tão comum, ele me ignorou, essa moeda é inútil talvez até pra ele. Com quem estou falando? Tenho que parar de falar sozinho. Onde eu sento ? Sem muita opção. Isso. Tomara que ninguém sente perto de mim. Sempre adorei andar de ônibus desde pequeno. Agora gosto de observar as pessoas. As pessoas do ônibus. Talvez eu seja um voyeur. Quantas pessoas aqui sabem o que é voyeurismo? Talvez ela, lendo, lendo o que? Minha curiosidade não tem fim. O que será que ela está lendo? Este é um dos meus defeitos, o outro é falar sozinho. Tenho que parar de falar sozinho. Acho que também perco o foco, talvez me perco totalmente. Sim, me perco totalmente. Por isso estou aqui.

Será que sabem por que estou aqui? E se souberem quem eu sou? Mesmo que soubessem quem eu sou, nada saberiam. Droga. Porque ela sentou do meu lado? Tem alguns bancos duplos sobrando. Ela está chorando. Por quê? Vou perguntar se esta tudo bem, a quem estou enganando? Não irei perguntar, porque perguntaria, que idiotice, talvez ela só precise de um abraço, eu já precisei de um abraço. Ele nunca veio. Será que to próximo da ponte? Ela já vai descer? Por quê? Não, ela não pode descer. Desceu. Eu nunca vou ver ela de novo. E assim que as coisas são. Provavelmente ela nem olhou pra mim. Eu poderia ter melhorado o dia dela, talvez fizesse ela se sentir melhor, mas não seria eu.

Isso que eu mais gosto sobre o ônibus, pode acontecer qualquer coisa, que o ônibus vai ser sempre o mesmo. Não importa quem esta dentro dele. Ele vai ser sempre o mesmo, apático, frio e cinza. As pessoas do ônibus não olham pra cima. Eu nunca olhei pra cima. Eu só olho pra baixo. As pessoas do ônibus não pensam nisso. Às vezes acho que as pessoas não pensam. Só sei que eu penso e penso demais. Por isso estou aqui. Cadê a ponte?

Queria não pensar. Queria olhar por essa janela e não enxergar aquele emaranhado de pouca carne, de pouca vida que rasteja enrolado no horóscopo da semana passada. As pessoas do ônibus não o enxergam. Talvez as pessoas do ônibus sejam felizes. Talvez elas não estejam fingindo felicidade. Talvez elas realmente riam das desgraças da vida. Talvez pra elas esteja tudo bem. Talvez por isso que eu gosto de observá-las. Talvez eu precise parar de falar comigo mesmo. Talvez por isto eu esteja aqui.

Daqui a pouco isso vai acabar. Daqui a pouco vou sair desse ônibus. A leitora vai sair. Finalmente. Minha curiosidade agradece. Auto-ajuda? Jura? Odeio Auto-ajuda. Decepção, não posso dizer que seja a primeira. Decepciono-me fácil. Tenho muita fé nas pessoas. Porque eu gosto delas. Acho uma qualidade que eu tenho é que eu não me decepciono comigo. Não tenho fé em mim.

A ponte. Peguei o ônibus certo. Vou dar uma ultima olhada para as pessoas do ônibus. Tudo extremamente ordinário. Nem uma mosca fora do seu lugar. Tenho que ficar de pé mais dois pontos. Uma criança entra pela saída. Como a luz no fim de um túnel frio. Adoro crianças. Queria ter uma. Sozinho não posso. Sozinho não posso quase nada. Quase. Por isso estou aqui. Ela sorriu pra mim. Pelo menos me despeço com um sorriso.Mas isso ainda é muito pouco.