Mundo olha perplexo para os lados. Voltou. Não se sabe o que aconteceu. Por apenas segundos tudo ficou divagar a ponto de ver-se toda a beleza da batida de asas de um beija-flor. A maioria escondeu-se na sua falta de vida e admirou o fato como algo estranho, mas não essencial a conversa diária de pão ou influenciar no lançamento internacional da mais nova bugiganga que se perderá no tempo. Menos aos adoradores da maçã.

Algumas mentes ainda interessadas nas pequenas questões fundamentais procuram soluções óbvias e simples. Como para todo bom mistério. Algo que seja de acordo com as normas e padrões. Não encaixava se em nenhum prognóstico de improbabilidades. Aos poucos se viraram para tópicos de extrema importância vital a alimentar os egos exibindo conclusões sobre obviedades inéditas.

Profecias tampam o buraco para pessoas que não querem a verdade, querem a certeza. Caíram aos guetos pelo tempo. 148 não é um número atraente. Pequenos conspiradores em seus quartos pouco ventilados têm toda a ligação feita por barbantes coloridos, dificílimos de serem achados, e jornais com o resultado das loterias virados contra uma parede imunda. Alguém, não ele, teve muita sorte.

Essa diminuída no compasso do mundo não mudou a vida de muitos. Apenas 5 pessoas. Um trabalhador belga que naquele exato momento olhou mais atentamente ao seu prato de jantar e o recusou. O tirando da lista de casualidades por envenenamento alimentar. Ajudou uma nova senhora australiana que nos momentos de folga, joga saudosismo em forma de barbudos encanadores a alcançar aquele pixel exato. Um leitor de auto-ajuda barata percebeu que é um leitor de auto-ajuda barata, com as conseqüências imagináveis que chatearam muito sua mãe pela enorme bagunça no seu novo fogão.

O Mundo continua a parar constantemente. Não como aquela vez. Nunca mais como aquela vez. Melhor? Sim. Agora se tem a verdade na ponta da língua. Não intrigasse mais. Sabe-se tão bem que acelera. Acelera como as asas do beija-flor que tem única função o parar o Maximo de tempo. Nunca pela ultima vez.

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A “Mosca”

03/06/2010

Nasce e começa a voar. Sem rumo nem direção. Feliz. Tudo é novo, tudo é belo. Rasantes, piruetas, idas e vindas. Feita do mais puro acaso, no meio de variadas alternativas. Tem o mundo pela frente e não quer perde-lo. Não sabe o que ele é e não sabe o que é saber. Sem pensar nem sentir, precisa apenas ser.

Tira o sono de garotos e garotas, homens e mulheres. Não deixa de ser ouvida por ninguém. A maioria a ignoram veementemente. Alguns acham graça nela e brincam com ela, coisa perigosíssima de se fazer. Outros tentam a descrever em palavras, mas acabam percebendo que vocábulos faltam. Grande parte prende-a só para si, não a deixando escapar.

Não para de se movimentar; Cada vez mais rápida e fugaz. A maior das ameaças é incapaz de fazê-la parar. Apenas faz mais rodopios e manobras e pousos e se aproxima cada vez mais próximo do perigo de ser exterminada. Existe o medo, mas teme mais ainda passar despercebida.

Encanta-se pela luz. Atrativo quase irresistível. Em um surto rápido de suposta sabedoria, poderá perceber o que acontece com a maioria de suas semelhantes. Sorte por isso ser rápido. Prefere entregar-se. A cada momento aproxima-se a hora da verdade e também a certeza da escolha certa

O fim, eminente conseqüência do seu começo, normalmente vem de 25 a 30 dias. Cientificamente, essas são os dados mais acertados. Apesar de todos saberem de quão forte algumas podem ficar durando anos e anos. O que poucos sabem é a felicidade quando uma dessas se torna o que antes almejava. Luz

Possibilidades

24/05/2010

Na porta de uma pequena casa de uma grande rua, senta-se seu João. Ele não tem medo de ficar ali na sua cadeira velha na calçada, todos o conhecem. Seu João tem esse fascínio por observar, quando mais moço dava longas caminhadas sem destino, quando a idade chegou, ele começou a andar de ônibus, passava longas horas no meio de pessoas com pressa de ter pressa. Sentia um prazer quase indecente em observar-las.

Poucos sabem, mas o pacato senhor já foi vereador, tinha convicções fortes. Sua vida era a casa de vereadores. Para ele foi uma das poucas vezes que sua vida teve um sentido. Sentido.  Isso é uma coisa de fundamental importância na vida de Paulo. Paulo Metafísica. Era assim que a seu psicólogo o chamava. O ex-vereador tentou ir freqüentemente a consultas e discutir sobre a vida o universo e tudo mais. Depois se cansou do infinito vazio das respostas. Tentou auto-ajuda. Depois se riu.

Muitos acham encantador, as rosas distribuídas por ele na calçada para as mulheres distantes daquilo, até galanteios em um francês enferrujado com o tempo, mas não menos delicado e romântico. Ele o aprendeu em sua época romântica, de cartas e sonetos de rimas baratas pouco sensatas. Poucas entregues. George não tinha a coragem dos velhos, a coragem do pouco tempo. Mesmo assim seu amor não acabou e nenhum dia sequer, deixou de querer amar. Mas esse amor, infelizmente, espelho opaco era.

Alguns pensam que os olhos vagos dele são por nostalgia de uma época melhor. Enganam-se. Ao contrario de outros de sua mesma geração, pequeno Ringo foi pouco feliz. Esse nome pouco usual foi escolhido por ele depois de pensar, já velho, em sua infância. Esse fato o difere muito dos outros nomes de sua vida que foram feitos cada um ao seu tempo. Isso foi à grande graça de sua vida. Pode não ser ortodoxo ou correto, mas enganar a vida foi o que manteve o ocupado todo esse tempo.

Ao final do dia, o cavalheiro sem nome dobra sua cadeira cada vez mais pesada, volta a sua casa cada vez mais vazia, passo nos seus corredores cada vez mais longos, bebe pela sua boca cada vez mais seca, deita na sua cama cada vez mais fria. E cada vez mais se convence que sua vida foi como de qualquer outro, só se arrepende de não transmitir a nenhuma criatura o legado de nossas mentiras.

O ônibus

22/05/2010

Será que esse é o certo? Vou perguntar, melhor não, melhor ficar quieto. R$ 2,50. Tenho R$3,00. Fica com o troco, engraçado nos filmes isso é tão comum, ele me ignorou, essa moeda é inútil talvez até pra ele. Com quem estou falando? Tenho que parar de falar sozinho. Onde eu sento ? Sem muita opção. Isso. Tomara que ninguém sente perto de mim. Sempre adorei andar de ônibus desde pequeno. Agora gosto de observar as pessoas. As pessoas do ônibus. Talvez eu seja um voyeur. Quantas pessoas aqui sabem o que é voyeurismo? Talvez ela, lendo, lendo o que? Minha curiosidade não tem fim. O que será que ela está lendo? Este é um dos meus defeitos, o outro é falar sozinho. Tenho que parar de falar sozinho. Acho que também perco o foco, talvez me perco totalmente. Sim, me perco totalmente. Por isso estou aqui.

Será que sabem por que estou aqui? E se souberem quem eu sou? Mesmo que soubessem quem eu sou, nada saberiam. Droga. Porque ela sentou do meu lado? Tem alguns bancos duplos sobrando. Ela está chorando. Por quê? Vou perguntar se esta tudo bem, a quem estou enganando? Não irei perguntar, porque perguntaria, que idiotice, talvez ela só precise de um abraço, eu já precisei de um abraço. Ele nunca veio. Será que to próximo da ponte? Ela já vai descer? Por quê? Não, ela não pode descer. Desceu. Eu nunca vou ver ela de novo. E assim que as coisas são. Provavelmente ela nem olhou pra mim. Eu poderia ter melhorado o dia dela, talvez fizesse ela se sentir melhor, mas não seria eu.

Isso que eu mais gosto sobre o ônibus, pode acontecer qualquer coisa, que o ônibus vai ser sempre o mesmo. Não importa quem esta dentro dele. Ele vai ser sempre o mesmo, apático, frio e cinza. As pessoas do ônibus não olham pra cima. Eu nunca olhei pra cima. Eu só olho pra baixo. As pessoas do ônibus não pensam nisso. Às vezes acho que as pessoas não pensam. Só sei que eu penso e penso demais. Por isso estou aqui. Cadê a ponte?

Queria não pensar. Queria olhar por essa janela e não enxergar aquele emaranhado de pouca carne, de pouca vida que rasteja enrolado no horóscopo da semana passada. As pessoas do ônibus não o enxergam. Talvez as pessoas do ônibus sejam felizes. Talvez elas não estejam fingindo felicidade. Talvez elas realmente riam das desgraças da vida. Talvez pra elas esteja tudo bem. Talvez por isso que eu gosto de observá-las. Talvez eu precise parar de falar comigo mesmo. Talvez por isto eu esteja aqui.

Daqui a pouco isso vai acabar. Daqui a pouco vou sair desse ônibus. A leitora vai sair. Finalmente. Minha curiosidade agradece. Auto-ajuda? Jura? Odeio Auto-ajuda. Decepção, não posso dizer que seja a primeira. Decepciono-me fácil. Tenho muita fé nas pessoas. Porque eu gosto delas. Acho uma qualidade que eu tenho é que eu não me decepciono comigo. Não tenho fé em mim.

A ponte. Peguei o ônibus certo. Vou dar uma ultima olhada para as pessoas do ônibus. Tudo extremamente ordinário. Nem uma mosca fora do seu lugar. Tenho que ficar de pé mais dois pontos. Uma criança entra pela saída. Como a luz no fim de um túnel frio. Adoro crianças. Queria ter uma. Sozinho não posso. Sozinho não posso quase nada. Quase. Por isso estou aqui. Ela sorriu pra mim. Pelo menos me despeço com um sorriso.Mas isso ainda é muito pouco.